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domingo, 21 de dezembro de 2025

Mistanásia

 

MISTANÁSIA

Por Susana Alamy

A mistanásia é a morte miserável do paciente devido a pouco ou nenhum recurso utilizado para tratar-lhe a doença e salvar-lhe a vida, é a morte antes da hora. Muito comum em países pobres com poucos recursos destinados à saúde pública. Um exemplo é aquele paciente que morre na fila aguardando atendimento médico.

            Há autores que utilizam o termo eutanásia social como sinônimo de mistanásia. A meu ver o sentido dos dois termos é aí desvirtuado, uma vez que na eutanásia se tem a boa intenção e na mistanásia se tem o abandono do paciente.

             Não há boa intenção e muito menos “boa morte” na mistanásia, pelo contrário.

 Damião Oliveira (in: “Dignidade da Pessoa Humana, Cuidados Paliativos e Ortotanásia: a visão de um juiz”, p.3) nos traz que “etimologicamente, de acordo com Cabette (2009, p.31), mistanásia tem o significado de ‘morrer como um rato’. E explica que o instituto: ‘[...] traduz o abandono social, econômico, sanitário, higiênico, educacional, de saúde e segurança a que se encontram submetidas grandes parcelas das populações do mundo, simplesmente morrendo pelo descaso e desrespeito dos mais comezinhos Direitos Humanos”.

 Há anos a imprensa noticia o pouco caso na saúde, mostrando pacientes sendo atendidos no chão de emergências de hospitais públicos ou vindo a óbito por não conseguirem atendimento em tempo hábil. Trata-se de exemplo claro de mistanásia, em contrapartida aos direitos fundamentais prescritos na Constituição Federal do Brasil de 1988.

 Podemos ainda relembrar os grandes problemas de atendimento médico durante a pandemia do coronavírus, de 11/03/2020 a 05/05/2023, onde a Covid-19 matou milhões de pessoas em todo o mundo, muitas delas por falta de recursos dos hospitais. E que deixou sequelas emocionais jamais assistidas e/ou tratadas por psicólogos.

            A mistanásia se deve também à formação precária de muitos médicos que não conseguem diagnosticar e tratar as queixas mais básicas dos pacientes, como quadro de hipertensão arterial; de enfermeiros mal formados que não conseguem puncionar uma veia ou são desatentos nas medicações e sem habilidade no trato com o ser humano fragilizado.

Na mistanásia temos o sucateamento da saúde, a precariedade de atendimentos, o descaso político com as necessidades mais básicas do sujeito doente.

 E POR QUE EU PRECISO SABER SOBRE A MISTANÁSIA?

 Para revindicar seus direitos, previstos na Constituição Federal do Brasil de 1988, de acesso à saúde, atendimento e tratamento.

 Para não se conformar com atendimento sucateado e de baixa qualidade e muito menos normalizá-lo.

 Para saber reconhecer quando um atendimento médico deixou a desejar e buscar outro profissional ou outro hospital.

 Para conferir se os materiais utilizados estão em condições de uso, como seringas descartáveis lacradas e medicamentos corretos.


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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

ORTOTANÁSIA: UMA DECISÃO DIFÍCIL

ORTOTANÁSIA: UMA DECISÃO DIFÍCIL




Paciente com câncer de estômago, inoperável, invasivo, reagiu muito mal à quimioterapia, tendo passado muito mal com diarreia, vômitos, desidratação, mal-estar generalizado, perda de apetite, perda de peso, apesar da alimentação através da sonda. Assim permanecendo por duas semanas após a ingestão de um comprimido de quimioterapia.

Duas idas ao hospital para tomar soro e medicamentos venosos, tendo sofrido muito na última ida quando na introdução de agulhas para o soro e medicamentos e coleta do sangue no pescoço, além da eterna espera por ser chamada.

Ponderados os resultados da tentativa de tratamento curativo e seus efeitos de estresse, optei por tratá-la em casa, através da hidratação e medicamentos via sonda.

Sem o estresse de idas e vindas ao hospital os cuidados paliativos continuam, aqueles que já vêm sendo dispensados desde o diagnóstico da doença e que visam a qualidade de vida da paciente.

E o que é qualidade de vida? Especificamente neste caso é estar em casa, sem dor, sem mal-estar, longe de estresse, junto das pessoas que ama e que a amam.

Em um caso de tumor tão agressivo e sem prognóstico de cura, decidi por deixar a doença seguir seu curso normal, o que é chamado de ortotanásia. O que não quer dizer que todo e qualquer tipo de tratamento será abandonado. Muito pelo contrário todo e qualquer sintoma deverá ser tratado. Assim, infecções serão devidamente tratadas, dores serão medicadas, mal-estar revertido.

Deixar a doença seguir seu curso natural, ortotanásia, não quer dizer abandonar o paciente à sua própria sorte. Quer dizer apenas que não há o que fazer em termos de tratamento curativo e que qualquer tratamento que seja imposto na vã tentativa de “salvar” o paciente será sentido como distanásia. Bem sabemos que a distanásia é incompatível com a qualidade de vida.

Tomar a decisão pela ortotanásia não é nada fácil, temos uma concepção curativa das doenças e não fazer nada para curá-las nos deixa bastante desconfortáveis, pois é como se cruzássemos os braços e não fizéssemos nada. Temos que repassar nossos conceitos, reavaliar valores, colocar-nos no lugar do outro e entender que todo e qualquer sofrimento desnecessário para manter a vida é um ato de desamor.

Assim, a ortotanásia que é deixar a doença seguir seu curso natural apoiada pelos cuidados paliativos, sem dor e sem mal-estar, sendo o paciente respeitado como um todo provido de sentimentos.

Susana Alamy
Psicóloga Clínica e Hospitalar
psicologiahospitalar.net.br

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