sexta-feira, 10 de maio de 2019

Solidão com 5 mil amigos


SOLIDÃO COM 5 MIL AMIGOS©
Por Susana Alamy*

Imagem: Pixabay

Ontem alguém se desentendeu em um grupo de WhatsApp e nas divagações alucinadas de quem briga sozinho, desabafou: “também não preciso deste grupo, eu tenho outros 22 grupos que faço parte”.

Fiquei ali de expectadora tentando entender como uma pessoa pode se relacionar satisfatoriamente em 22 grupos, com uma média de 200 participantes em cada, sendo, imagino, muitos deles voltados para a área profissional. Seriam mais ou menos 4 mil e 400 pessoas com as quais ela acredita interagir.

Sem contar os amigos do Facebook, que podem chegar facilmente a 5 mil só no perfil da pessoa, fora os grupos temáticos.

Simples e efêmero: mudo de grupo! Não faz diferença quem são os amigos. Só trocar de grupo e outros amigos estarão lá.

E aí vemos de tudo. Pessoas despejando material, chegando um seguido do outro, 30 arquivos freneticamente compartilhados de uma só vez, sem que ninguém tivesse demandado nada, lotando os celulares dos outros membros do grupo. Qual a finalidade? Sentir-se útil? Talvez. Precisaríamos perguntar. Mas fazer uma pergunta desta a quem demonstra uma boa vontade sobre-humana ao compartilhar os 300 arquivos que tem, pode gerar muita agressão.

Em outros grupos vejo pessoas discutindo técnicas de atendimentos profissionais, verdadeiras consultas gratuitas, trocando ideias e ações de como fazer. Do outro lado um estranho amigo se colocando como expert a aconselhar gentilmente o colega. Mas, ninguém sabe a formação de ninguém ali, não se conhecem e acreditam um no outro. É mais fácil assim. Abrir livro... nunca. Agradecem. Vão colocar em prática a “receita de bolo” ofertada generosamente pelo desconhecido. Socorro!!

Em outro uma desordem que qualquer libertinagem exigiria a paternidade. Ofensas, adjetivações, agressões verbais, capazes de demonstrar na prática o que é uma projeção de si mesmo. Mal-estar. Evasão do grupo. Silêncio. Melhor assistir de camarote a pessoa se enaltecer, aos gritos, de ser alguém equilibrado e capaz, subjulgando os outros. Aquela velha máxima em alta e passando despercebida: quando você aponta um dedo para alguém, outros 4 dedos voltam-se para você. Mas, o que tem? Nada. Ninguém se conhece mesmo. Ninguém sabe quem está do outro lado e nem quer saber.

Xingamentos de “imbecil e burro” lotam os posts de política. Cabo de força. Vence quem resiste mais, quem incomoda mais, quem gasta tempo escrevendo textão que ninguém vai ler, mas que vão debater pela primeira frase escrita nele. Não precisa ter conteúdo, basta dar sua opinião.

E ficam ali, conectados todo o tempo. Os olhos não saem do celular, nem mesmo quando atravessam a rua, ou se sentam para almoçar, ou quando estão em aula. E até mesmo no trabalho. Pit stop de 5 em 5 minutos para responder a uma mensagem no grupo. E já está formado o chat. Bate-papo. Nada mais intolerável em um grupo de desconhecidos. Por que não conversam no privado? Porque não tem graça, tem que ter plateia e é nesta mesma plateia que o show será dado.

A razão é sempre soberana de quem jamais se identifica, os discursos são vazios, não há fundamentação nem filosófica, nem histórica, nem nenhuma além do chavão: “mas eu acho que é assim, me respeita. Respeita a minha opinião”, sem nem ao menos se preocupar com a língua portuguesa castigada.

E o que é respeito?

Sabe-se alguma coisa sobre ética e moral que esteja além do dr. Google? Bobagem. O Google me informa de tudo e eu não preciso nem gastar minha memória, só clicar e a resposta vem.

Meu mundo. Meu tudo nas redes sociais. 5 mil amigos e você está em casa no final de semana reclamando de tédio.

Caiu a internet. Misericórrrrrrrrrrrrrdia!!! De uma lado o vazio de quem eloquente discursa para o nada. De outro a fluidez descrita por Bauman como líquida, a escorrer pelos dedos das mãos que já não sabem o que são mãos-dadas.

E os aplicativos de relacionamentos? Horas com as pontas dos dedos passando fotos, recusando ou dando like. Julgar pela aparência? Pergunte a qualquer pessoa se ela julga as pessoas pela aparência. A resposta inevitável é “não”. Mas... Ah! No aplicativo é diferente. Claro. Tudo o que justifique qualquer ação incoerente é pautado no “mas lá é diferente”. Diferente nada.

A ansiedade aumenta. Ninguém responde. Ninguém online. Mas se gaba de ter 5 mil amigos no Facebook, 2 mil seguidores no Instagram e pertencer a 22 grupos no WhatsApp.

Já não sabem mais o que é ser amigo. Desconhecem o quanto é preciso rebolar para manter uma relação, qual seja ela. Estabilidade só na internet, se ela não cair, porque nem o celular de hoje é o mais moderno e nem os amigos de hoje são os de ontem. “Fazer novas amizades” é outra máxima da atualidade. Esconde o não ter amigo nenhum? Por isso essa ansiedade grande em “conhecer gente”? E cada dia um. E cada dia mais um no face, no insta, no zap.

Solidão no meio de tanta gente. Porque não há conexão além da internet. Não são nem parecidos e nem diferentes, não dividem as angústias e nem as alegrias. Pausa! Fotos dividem. As mais lindas. As mais felizes. Vida perfeita. Vida perfeita que fica no celular. Na hora de se jogar na cama, o vazio de quem desperdiçou tempo.

E se fosse possível trocar 5 mil amigos por um presencial? Ter alguém com quem você pudesse ser você mesmo, de quem pudesse ganhar um abraço apertado e um olhar cúmplice? Ou mesmo um puxão de orelhas? Alguém com quem pudesse efetivamente manter um diálogo? Marcar um encontro, curtir um filme no cinema, dar uma volta na rua...


*SUSANA ALAMY - É psicóloga clínica e hospitalar, psicoterapeuta, professora de pós-graduação e palestrante, docente livre. É autora dos livros “Ensaios de Psicologia Hospitalar: a ausculta da alma”, “Como Viver Bem” e “Tigrinha é Adotada”. Com mais de 30 anos de profissão já ajudou inúmeras pessoas através da psicoterapia, através de seus cursos e de seus livros. E ainda pretende continuar sua jornada por muitos anos. Blog: http://alamysusana.blogspot.com/. Site: http://psicologiahospitalar.net.br/. FB: https://www.facebook.com/psicologasusanaalamy/. E-mail: alamysusana@gmail.com.

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sábado, 2 de fevereiro de 2019

Diferenças entre Psicologia Hospitalar e Psicologia Clínica


No livro "Ensaios de Psicologia Hospitalar: a ausculta da alma", Susana Alamy faz a distinção didática entre psicologia clínica e hospitalar, trazendo mais clareza para a diferenciação na prática. Reconhecer a diferença é caminhar para a excelência dos atendimentos. No entanto, a linha que separa uma da outra é sempre muito tênue e sujeita a embaraços.

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